De quem é a culpa?

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

VILA BOLONHA (de Marcos Salvatore)


Não consegui ler, então sentei na cama pra tentar pensar em algo pra pensar. Meus pés no chão úmido e gelado me fizeram acordar de vez. Mas preciso dizer que não tinha cama, era apenas um colchão no chão e eu estava morando sozinho de novo.
Lá no Bolonha, como eu chamaria meu kit - net alugado no centro da cidade, na Vila Bolonha, ao lado de um palacete que impressionava pela beleza e pelo descaso com que o pintaram de branco, tudo parecia em seu lugar: minhas roupas espalhadas pelo quarto minúsculo (o banheiro parecia maior), a pia com as louças e restos de comida da semana inteira (meses), minhas coisas - chamo de coisas aquilo que guardamos dia após dia, sem exatamente saber o que fazer delas.
Estava mais magro do que o normal, menos confiante que o anormal. Quando penso no que ficou da mudança, não sei o porquê, mas só me lembro dela me acenando do lado de dentro do táxi. A gente devia ter tentado mais. Estava tudo em seu lugar, não é? Meu trabalho, meu pequeno frigobar com queijo, pão, presunto e várias garrafas de vinho semi-vazias.
Faltava algo, sim, faltava mesmo, faltava a mim.