De quem é a culpa?

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

PRIMEIRO “COELHO” (de Marcos Salvatore)

by unknown (actor: Peter Dincklace)

Quando eu era moleque gostava de ouvir minha Vó contar histórias antigas, transcendentes, do tempo de Antônio Lemos, de Breves, de Jaburuzinho. Sentávamos ao redor de sua vela na pequena casa de madeira, também as crianças vizinhas. Gosto de pensar nas noites sem energia elétrica; bairro do Telégrafo sem fio – caçávamos vaga-lumes. Dona Raimundinha prometera uma das muitas histórias sobre o Tio Manél. Lembrei de Verinha: minha idade, uma coisinha, meu amor. Ela não conseguia capturar seu inseto (tadinha), então fui ajudar. Por entre lânguidos olhares, corremos para trás da casa de Dona Rosa, vendedora de chopp, e encontramos um brilho solitário, longe, atrás do pomar. Por um momento vacilei, mas prometi buscar para ela em troca de um beijo – ela disse que sim, enrolando os dedinhos na saia. Atravesso o denso mato, descalço, e quando dou por mim, estava até a cintura dentro da lama.
Duas mãos macias me puxam pelos braços antes de se afundarem comigo: - “Marcos! Marcos!”. Ah, meu corpo com seu corpo, entrelaçados, uau! Conseguimos sair. Apanho o pirilampo e o guardo no bolso da camisa. Nos lavamos na torneira que ficava no tanque do quintal. Tiro primeiro a minha roupa, depois a dela. Com minhas mãos banho suas pernas, coxas, e também... seus meios sonhos. Sua curiosidade era bem maior que a minha.
No meu peito, as emissões luminosas de um primeiro coração, verdadeiro coração sob um luar de julho. E mesmo depois de tanto tempo, antes sempre de qualquer um beijo, sinto o brilho daquele vaga-lume no meu peito... por toda a vida.
Para encurtar: depois do beijo, rolou meu primeiro “bola gato” que depois virou “meia nove” – maior alegria. Comecei a desconfiar de que eu era um pequeno filho da puta. Teríamos simplesmente nos beijado, mas a lama, o banho, a confiança, a intimidade em flor nos animou. Quase meti o pau inteiro, meu impulso foi meter atrás, ela até deixou um pouco, mas depois chorou, chorou muito e acabei deixando pra outro dia, até porque dona Rosa tinha um penico na cozinha de sua casa e bem naquela hora deu vontade de “orinar”, talvez “obrar”:
- Peguei, seus aciado!!! Dona Raimundinha, venha ver aqui o Marquinho com enxerimento pra cima da filha do Seu Crente!
Meu rosto sem mobilidade, ria. Não ficamos juntos, nunca mais, sei lá o por quê. Mas ainda estávamos de mãos dadas e presentes quando a Mãe-Vó veio com sua régua de madeira e me deu a primeira rimpada por cima do lombo.