De quem é a culpa?

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

MINGUANTE (de Marcos Salvatore)

by Namio Harukawa
Aconteceu no Bar da Toca, mas poderia ter acontecido em qualquer lugar. Eu estava lá, perfeito anti-herói, costumava tomar uma ou duas doses e ir embora, como sempre. Chegava cedo, quando tudo ainda estava meio vazio, ia até o freezer e pegava uma gelada (era amigo do dono), dessa vez estava mesmo “no osso”. Sobre mim, o peso de um alcoolismo indulgente, ainda em formação.
Então, aquela mulher maravilhosa entrou no bar, num híbrido de Carla Camurati com jazz, blues e Hard Rock Café; pediu uma dose de uísque e disse:
- Está fazendo um lindo dia. Mas não é pra qualquer um. (...) Já perdi as contas das vezes que repeti isso, e chego sempre a conclusão de que qualquer um pode ter um lindo dia... pelo menos um dia desses – será que hoje é o meu? Será que vou estar preparada para possuir, mesmo que por pouco tempo, algo que seja lindo?
Seu senso comum esmagador me espantou logo de cara. Falava pausadamente como se tentasse não se repetir. Sua voz era meio rouca, um embalo de voz de alguém que chora de propósito, por querer, pelo gosto de estar com a voz cega, fumada. Fiz de conta que entendi perfeitamente, e dei corda, meio cínico:
- Não está simplificando demais? Lembre-se que as noites também são contadas como dias, afinal, falamos de vinte e quatro horas, certo? – A certeza de nunca me dar bem com mulheres como ela me relaxou, me naturalizou.
Alguém dormia sozinho na primeira mesa à esquerda, depois da entrada; uma mulher. Às vezes acho que a escolha da mesa influi muito no que pode acontecer depois da primeira dose, do primeiro cigarro. Neste caso influiu, porque eu sempre preferi beber no balcão – é menos comprometedor.
Pensei: “Belíssima. Mas deve ser só isso”. Ela me olhou, fez uma pausa inesperada e sorriu – preciso dizer uma coisa que pode parecer até bobagem, mas para mim não é; nem a tiro: eu só confio de cara em pessoas que fazem o que ela fez. Como posso explicar? A ausência de neura te dá uma empatia inesgotável, não vou entrar em detalhes; o fato é que a gente se deu bem desde o início:
- Podemos beber juntos ou separados. Talvez estejamos aqui pelo mesmo motivo. Então, por que não compartilhar futilidades egoístas?
Noto em sua mão um bom exemplar do meu autor preferido: - “E esse livro, aí? Também é fútil?”.
- Sempre tenho um livro, para criar meu próprio tédio. Eu e a embriaguez seguimos caminhos diferentes... opostos. Bebo o suficiente para pensar em mim de outra forma. Ultrapassar a barreira do corpo e encontrar um lugar.
Suas concepções eram meio furadas, mas existia alguma coisa no seu carisma que subvertia as palavras de uma forma muito delicada, irresistível, que me fazia lembrar, não sei por que, de uma das fases da lua... ainda hoje.
- Que lugar?
- Eu não sei. Você poderia me falar de algum enquanto dançamos. Mas primeiro eu preciso ir ao banheiro, quer vir comigo?
- Está brincando?
- Deixa de graça. Vem logo, antes que eu resolva flertar com a mulher da outra mesa.
Já disse que o bar estava vazio? Vazio. Estávamos sozinhos, ou praticamente sozinhos. Entramos no toalete feminino. Ela apagou a luz e disse: - E se eu fosse um travesti e quisesse te enrrabar agora mesmo?
Foi automático. No mesmo instante tentei abrir a porta, acender a luz, qualquer coisa pra sair dali, mas ela se colocava na frente, me atrapalhando. Não tive escolha, então sentei a mão por cima da cara. Ela começou a rir, se levantou e acendeu a luz.
- Olha pra mim.
- Me dá essa chave, porra. Que história é essa, “ô rapá”? Se não me der a chave eu te quebro a cara. Seu filho da puta.
- Quer pelo menos me olhar, uma “vezinha” só. Eu abro essa, merda.
Virei de olhos fechados e fui abrindo devagar, bem devagar. Ela estava sentada, completamente nua, na bancada de mármore da pia. Sua buceta era a “bacurinha” cor de rosa mais suculenta que eu já tinha visto na vida. Abriu a torneira e começou a se lavar, começou pelo cuzinho – meu coração parecia querer sair do peito, como um Alien. Seus peitos tinham uma particularidade afrodisíaca: enquanto um tinha o biquinho bastante saliente, o outro se escondia, se tornando quase superficial e eram sardentos como se tivessem sido salpicados por canela. Sua nudez me olhou, atinada, e disse:
- Só vai gozar quando eu mandar.
Sentia meu corpo se partindo à medida que o pau tomava partido na situação. Com uma ingenuidade quase homicida, pensei: - “E se alguém abre a porta e nos pega? Talvez um broto estilo “abadá”. Poderia se juntar a nós.”.
Sempre tive um temperamento meio nervoso. Estar deprimido para mim sempre foi uma espécie de fatalidade kármica, de ante sala para supervalorizar e dramatizar qualquer coisa, como fazer amor com uma deusa como aquela, por exemplo. Seu orgasmo foi tão intenso que ela parecia estar miando. Miando, porra!
Ficamos lá uns vinte minutos infinitos. E no final, quando ela ordenou que eu esporrasse, eu esporrei... entre os seios. Ela espalhou meu sêmen pelo seu corpo como se fosse leite de aveia:
- Faz bem para a pele. (...) Vamos que eu preciso dançar.
Enquanto dançávamos, eu sentia meu cheiro no seu rosto, seu pescoço.
Dizem que não existe felicidade, apenas momentos felizes. Mas isso é papo furado, tudo que é verdadeiro dura para sempre:
- Você tem cara de mulher casada. Digo isso porque as mulheres casadas que rodam botecos como este, sempre chamam atenção. Com a maior frequência são cultas, viajadas, bem sucedidas no trabalho e mal fodidas em casa.
- Sou muito bem casada. Meu marido tem um bom emprego, um bom carro, viajamos em julhos, em feriados, em dias enforcados. Em datas importantes ele me dá presentes: sempre uma jóia, sempre. Às vezes acho que meu marido me paga; que está sempre me pagando por algo que eu lhe daria de graça. Mas, o que existe pra ser dado de graça, não é mesmo?
Dobrava as pernas em minha direção toda vez que terminava uma frase, dava um trago no cigarro de cravinho e esperava sorrindo por uma resposta minha:
- Uma resposta longa, não acha? – Minhas curtas observações, gaguejadas praticamente, eram impulsivas e desastradas.
- É verdade. Gosto de falar pra não me sentir sozinha. Anos de prática. E, olha, vou te contar um segredo: ninguém houve ninguém.
- Nem os padres no confessionário?
- Muito menos eles. Têm o poder do perdão. Considerados demais.
- O que você faria se tivesse esse poder?
- Cobraria caro pela hora. Como uma puta de luxo, chique trambique, meu apelido seria “Dez Quilos de Buceta”. Profissional liberal. Meus dez mandamentos estariam numa tabela de preços. Mas perdoaria pessoas gentis, como você.
- E por que acha que eu pediria o seu perdão?
- Me pediria perdão por me amar. Tenho certeza. (...) Aí, alguém te diz: - já nem precisa botar fé, tem muitos anos pela frente, mas se esquece dos anos que temos para trás. Eles também são nossos: recorrentes, assombrosos. São como bolas de ferro, presas a sua perna por grossas correntes.
- Deve ser desconfortável. Desculpe eu não falar muito. Geralmente só falo quando me perguntam alguma coisa.
- Não se preocupe, você diz tudo que precisa ser dito. Sua atenção me faz sentir especial. Gosto do seu respeito, embora não tenha a mínima idéia do que respeitar.
- Sua verdade.
De repente entra um sujeito mal encarado, visivelmente alterado, parecia enfurecido, vidrado. Ela se levanta e vai falar com ele. Ele diz alguma coisa e os dois se sentam numa mesa, longe de mim. Fingia não me conhecer. Meu amigo, dono do bar, leva uma grade vazia de cervejas e coloca embaixo da mesa. Os momentos viraram minutos, que logo se tornaram horas.
- Ei, Tonho. Como é que é isso? Dá pra explicar?
- Esse é o marido dela. Aposentado, viciado: vive ligado, aplicado, o cacete. Faz vexames, arruma brigas, fica chamando os outros de imbecil quando bebe e cheira demais, apanha dos outros pela rua. Ela sai pelos bares procurando por ele, pagando suas contas penduradas, seus estragos. E ela é tão bacana, cara. Não sei o que ela está fazendo com um “figura” como esse. Deve ser pena. Às vezes acho que a doida é ela, não ele.
- Nem me fale. Espero que ainda dê tempo de esquecer que acreditei... por um instante...
Esperei que o trapo humano fosse até o banheiro. Paguei minha conta, e antes de sair passei por ela, que estava de cabeça baixa. Segui em frente, mas alguns passos depois do portão, antes de voltar ao meu estado normal, alguém tocou o meu ombro.
Ela não disse nada, apenas me pegou pelo rosto e deu um beijo shakespeariano, de tirar sangue, de desidratar. Algo naquilo me dizia: - “Me perdoe, mas eu sou assim”. Depois de uma pausa suspirada, antes de voltar para o marido, olhou para mim, fez uma pausa inesperada e sorriu novamente.