De quem é a culpa?

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Celina não sabia gozar duas vezes (de Marcos Salvatore)

by Earl Hammie

Conheceram-se na noite em que Nemias fora demitido: nada de original, de romanesco. De fato, o local não passava de um prostíbulo e Moabita, garçonete assediada todas as noites por bêbados de todas as idades e times, resolvera demitir-se sem aviso prévio. O patrão, filho de português com cabocla de Breves, ficou uma fera:
- Ah é? Então pega os teus panos de bunda e vai-te por esta. Ainda estarei a ver-te dada a relaxações. Paid’égua essa. Égua de ti.
Pegou suas poucas coisas e partiu para o salão, onde um show de streap tease amaciava os pinguços. Uma idéia fixa a fissurava: “Não tenho onde dormir, fico na rodoviária ou vou com qualquer um?”.
- Boa noite, por acaso o seu celular é de tal operadora?
- Não, é de tal, por quê?
- É que eu estou sem crédito e gostaria de mandar o meu patrão, pra puta que o pariu mais uma vez. Mas tudo bem, obrigado.
Nemias, era um homem cuja timidez exalava um cinismo aparente, nervoso. Desde as seis da noite bebendo, já não falava coisa com coisa e gastara todo o seu crédito telefônico ligando, a título de vingança, para o ex-patrão, a destrata-lo de todas as maneiras.
Não sabia se ganhava mal por beber todas as noites, ou se bebia todas as noites por ganhar mal. O fato é que talento e vocação tem a sina de Tristão e Isolda, também tem a versão Abelardo e Heloísa.
Estava lá, naquele balcão escuro, naquela boate imunda. Seja como for, depois de encontrar moedas no vaso sanitário, jogou a sua e fez um pedido. Coisa de pessoa pequena, vazia, apagada, dispensável.
Voltou para a boate e se divertiu imaginando o balcão como uma estrada cheia de pessoas pedindo carona. “Que mulher me pediria uma carona?”. Na melhor das hipóteses, felicidade não se compra, aluga-se.
- Preciso viver um pouco. Isso não vai ficar assim. Escuta aqui ô Catuaba. Tu que é garçom há tanto tempo, já viu algum cara ficar de graça com alguma mina daqui?
- Ainda não, meu amigo. Mas confesso que depois de vinte anos de bar, já vi de tudo, acredito em tudo, até em puta de graça.
Meu amigo Teco se ouvisse isso, diria com os olhos vidrados, cheios do dragão: puta não, meretriz.
Catuaba prosseguiu e contou algumas das histórias mais macabras que já tinha ouvido. Contou a ele a história de Celina, prostituta assassinada por um travesti, que era seu amante e cafetão, deixou escrito na parede do quarto com o sangue dela: Celina não sabia gozar duas vezes. Ninguém sabia da paixão dos dois: - “mulher com mulher da jacaré, meu caro”.
- Também pedi demissão hoje, disse Moabita, simpatizando com Nemias, por ele não ter dado em cima dela.
- O time é nosso, amor, o time é nosso, grande lanterna, até o fim.
- Não tenho pra onde ir.
Nemias, pela primeira vez, olha para ela. Depara-se com aquela fêmea de olhos grandes e luminosos, cheia de sacolas de supermercado com roupas e sapatos, olhos mareados.
- Escuta eu não tenho mais dinheiro, meus últimos trocados foram pra essa breja, que por acaso tá até quente.
- Me dá um gole?
- Acho que você não percebeu. Coisinha fofa, eu tô duro.
- Eu ouvi. Me dá um gole, porra?
- Eu bebo, ela que fica doida. Vê mais um copo aí, ô Catuaba.
Catuaba pega um copo limpo e se vira de forma doce para ela:
- Mandou o luso pra’quele lugar Môa?
- Mandei, aquele indecente queria que eu servisse as mesas de calcinha e sutiã. Eu disse que não às três porradas.
Diz isso e vira dois copos cheios seguidos de uma só vez, dando um arroto vulcânico, de padre - boceja:
- Essa foi doida! Mandou a pau.
Enquanto ela e Catuaba conversavam sobre os cornos do patrão, Nemias contava suas moedas, na esperança de ter o suficiente para arrastar “aquele negocinho” para casa. Nisso, lembrou das moedas no vaso sanitário e saiu correndo como um maluco para o banheiro, chegando lá arrombou a porta e quase atropelou um velhinho que urinava por uma mangueirinha:
- Ô jogador, espera a tua vez.
- Desculpa aí Tio, mas me deixa verificar um troço aqui.
- Se o troço é teu eu não sei, mas tem tanto do troço aí que eu acho que vai ser complicado definir de quem seja. Mas meu não é, que eu só vim aqui pra mijar. A vida é essa. Só mulher pra fazer um sujeito enfiar a mão na merda.
Lá estavam elas, quadrigêmeas moedas de um conto cada. Dava pra van e se bobear pra um café completo no terminal rodoviário. Contendo o asco e a ânsia de vômito, enfiou a mão direita na privada colorida. Feliz da vida, não percebeu que não havia pia, por isso, já satisfatoriamente derrotado, voltou para o bar, sem lavar as mãos. Moabita terminava de dizer:
- ... e de vez quando me dizia: “você faz caridade, minha filha?”. Ô velho fodido.
- Que ir pra minha casa? Quer? Moro longe, mas tem uma cama extra. Eu te levo. É pegar ou largar, se não quiser dormir na rua. Eu ouvi a história. Não quero nada, só companhia.
Olhando-o de cima a baixo, fez uma bola enorme com o chiclete, olhou para o Catuaba, que assentiu com a cabeça, perguntou:
- A troco de quê?
- De nada, eu venho aqui e sempre volto pra casa sozinho... sempre. Desta vez não. Se você confiar em mim.
- Então tá, mas deixa eu te mostrar uma coisa, aqui ó.
Tira da bolsa um spray de pimenta, e mostra para um Nemias quase amarelo.
- Se me encostar, já sabe: Vai virar cegueta.
- Bom... motivação assim...
A noite os acolhe, numa caminhada cheia de poças d’água, passagens, esquinas, contam um pouco de suas histórias de vida, se conhecem. Irmãos na miséria e na falta de oportunidades. Percebem-se ora armados, ora desarmados; há um tempo cautelosos nesse intensivo conhecer que só situações adversas ou coincidências duradouras explicam. Não creio que todo amor seja uma questão de classe social e espiritual, apenas o verdadeiro. Apenas o sexo rompe classes, sem dúvida, rompe.