De quem é a culpa?

segunda-feira, 23 de maio de 2011

BELVEDERE (de Marcos Salvatore)

by Maurits Cornelis Escher

Ela se aproximou. Esperava por um largo encontro há dias. Queria encontrá-lo e ter certeza das dúvidas, da intrigante euforia do seu coração. Saber se sentiria o mesmo que sentira quando o leu. Tentou dizer alguma coisa, não se chegou muito. Ficou percebendo-o sem sentir que percebia suas pernas, sua voz de boca e palavras de carne tranquila, amiga – sedutora de interiores; como soprava a fumaça do cigarro, como reagia à sua distância de inquietante segurança. Embora não fumasse, por um instante quase lhe pediu um cigarro. Queria apenas falar com ele, de alguma forma desabrigada saber se ele também a via com seus olhos e se compartilhava da idéia panorâmica de um único olhar, recíproco em carinho e força do querer ser de alguém, uma tal ou tamanha coisa qualquer de valor inestimável; para duas pessoas tão diferentes em idade, em cultura, em comportamento frente ao perigo, eles até que se saíam bem – ninguém via... ou percebia, o sexo em camadas musculosas que entre eles se dispersava em suor e luz. As vibrações sucessivas dos mamilos formigantes, de um seio vivo estavam lá, como num mirante, num orgasmo aparente de lúcida paciência e espera, como uma balança pesando também ao peso dos peixes: desculpa das ondas que se afogam na sede de sua aparente discrição que se oferecia a ele; lhe garantindo as entrelinhas necessárias, um subtexto, um lugar na sua cama ou na dele.