De quem é a culpa?

segunda-feira, 21 de março de 2011

Concepcional de A REDENÇÃO DO PORTO RECÍPROCO - Concepcional (de Marcos Salvatore)

by Ralph Gibson

(...) Aproximou sua boca de mim e disse, quase sussurrando: - “Baby, preciso te mostrar uma coisa, vem.”
Olhei devagar para os lados. Os outros do grupo continuavam o exercício, que demoraria mais uma meia hora. Fui atrás dela na ponta dos pés.
Exercícios de interpretação são levados a sério no início, mas depois nos cansamos de imaginar minhocas cobrindo nosso corpo, ou de chorar olhando um copo d’água.
Chego ao camarim e antes de bater na porta ela abre e sou puxado com violência para dentro. Um abajur coberto por um lenço vermelho, uma poltrona e um espelho imenso usado pelas alunas de balé, esperavam com ela.
Lá estava ela: uma Sade Adu severa e altiva, mais velha e com um pau de borracha enfiado na bunda - foi difícil tirar aquilo de lá.
Pouco tínhamos de Eva e Adão. Eu queria muito me tornar um escritor de grandes peças para teatro, de contos e romances. E ela era apenas a mulher do dono do prédio. Seu temperamento era distante, quase indiferente, nas aulas estava sempre olhando para baixo, para o além, por vezes eu a via perdida em pensamentos, olhando uma janela.
Meus dezessete anos rodrigueanos me tornaram forte e cínico por causa dos livros que devorava com amor, dia após dia. Sempre tive um humor andrógino, encarava as pessoas e as desafiava a me ouvir, a se explicarem de novo e de novo. Escondia minha timidez roendo as unhas de dia e mergulhava na palidez da noite, sempre à noite, nunca o dia. Sempre aparentei ter mais idade do que tenho. Eu me sentia confuso e indeciso, perfeito para me entregar ao amor ou ao ódio.
Eu tinha a mente frágil, fértil, de menino colecionador de sensações, prodígio no trabalho e nos estudos, mas um pervertido da melhor espécie. E ela era um poema longo, um conto a ser descoberto e lido, com seu jeito de andar e olhar.
- Vem cá, Baby. Quero a sua língua onde eu mandar.
Assim era ela, só amava mandando, nunca pedia, nunca obedecia: - “Agora aqui, ali, devagar, com força, ainda não”. Inevitavelmente escravos um do outro. Determinados a viver algo sem nome e sem razão.
Umas lésbicas da companhia gostavam de sair conosco e ela se divertia vendo uma peidando na cara da outra. Também amava me assitir fazendo amor com todas. Chamava-me de romântico, debochava do meu jeito carinhoso e atencioso com as mulheres. Dizia que jamais haveria alguém pra mim se eu continuasse agindo assim. Acho que ela estava certa. Tenho uma natureza compassiva, compreensiva, sempre canalizei minha violência interior para sexo e para defender aqueles que amo.
Às vezes me pergunto se aprendi tudo com ela. Não saberia dizer. Apesar de todo o malabarismo de corpos, ela gostava mesmo era do velho papai e mamãe. Ficávamos horas revezando, suando, tomando fôlego, ar, depois que gozava me mandava sair de cima e ficar calado por pelo menos uns quinze minutos, dizia que homens não sabem o que dizer depois do sexo, por isso só falavam merda. Coisas interessantes só são ditas uma vez. Não se repete a exceção, por isso procurávamos nossos rostos na penumbra, e os encontrávamos vagando, longe um do outro e sem expressão mensurável.
Ensinou-me a fumar e a beber devagar. A só comer quando tivesse fome. Dizia que homens feios nunca são amados, por isso que eu fosse bonito sempre, que eu me preservasse do tempo e dos vícios e que guardasse meu pau só para mulheres lindas. Que jamais implorasse por sexo, que putas não sofrem por amor e sim por dinheiro. Que não tivesse ilusões. E principalmente a respeitar a opinião de quem quer que fosse. A verdade é o limite.
Era casada com o dono do prédio, o Nabuco. Ele era contador. Sempre achei o nome do sujeito um afrodisíaco a mais para o chifre, como uma predestinação maternal, natalina, consentida desde o útero, como uma sina. (...)
Continua...