De quem é a culpa?

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

VALOR (de Marcos Salvatore)


Passei por ela na esquina de São Pedro com Padre Eutíquio, sem notar seus lindos olhinhos azuis me procurando, mais vivos do que eu. Deveria ter uns setenta anos, talvez, quem sabe? Brincava com sua sombrinha cor de rosa, de flores estampadas; olhava atentamente a todos que passavam indiferentes a ela.
(Tanta pressa pra quê? Já estava mais do que atrasado. Sempre atrasado.)
- Boa tarde, senhora.
E ela cantou pra mim:
- Boa tarde, meu filho.
Quase tropeço. Largos passos depois eu paro, seguro meus joelhos em apoio e respiro fundo, exausto de correr e de lutar contra o tempo... olho para trás e a vejo sorrindo pra mim. Uma larga, uma rara demonstração de que a vida vale à pena. Quase achei que todos nós deveríamos, de vez em quando, sair por aí, brincando com sombrinhas e guarda-chuvas pela cidade.
Pensei na minha filha e no mundo que vou deixar pra ela um dia. Será um mundo melhor? De velhinhas que brincam nas esquinas com sombrinhas cor de rosa? Será que eu fiz a minha parte? Que homem é um homem que não torna o mundo melhor?
Seria bom, mas acho que não vai ser assim. A beleza é uma exceção. De vez em quando acontece. Tem que acontecer. Não sei falar sobre isso.
Há quanto tempo ninguém me sorri sem querer nada? São as “segundas intenções” que nos tornam malditos estúpidos imbecis. A verdadeira miséria vem dos “outros planos”.
Aquela senhora me salvou um pouco. Não sei o seu nome, nem se pegou o seu ônibus depois que lhe acompanhei ao ponto. Mas até alguém como eu sabe que coisas assim não acontecem em qualquer esquina.