De quem é a culpa?

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

TRÍDUO (de Marcos Salvatore)

by Roberto Rodrigues

CINZAS
Os relâmpagos começaram ainda em Jundiaí. Bandeirantes, dois motoristas conversam pelo rádio:
- Foda, esse tempo! Mas me diz aí, ô Peão: largou os estudos pra fretar pneu e remédio?
- Hoje eu faço vinte e dois, pedi pro velho pra guiar até “O Belém”. Ida e volta. Na hora ele brigou, mas depois...
Wagão, trinta e quatro anos, da sua Scania vermelha, imita a voz de locutor de Rodeio:
- Quarta-feira de cinzas. Segura Peão, que o Pó de Broca largou faculdade de doutor pra se misturar na boiada. Esse comboio não tem volta nem broca torta.
- Eu precisava.
De fato, José Luiz, ou “Zezinho”, como todos os companheiros do seu Pai o chamavam e conheciam, sempre fora um daqueles meninos estudiosos, soturnos: promessa de outra vida pra família. Estava prestes a entrar num dos cursos mais concorridos daquele ano e aprovado com louvor no vestibular. Só que, não ligando muito para os perigos, convenceu o pai de que homem que é homem tinha que viajar pelo menos uma vez de caminhão. O velho aceitou, na condição de que outro carreteiro, alguém experiente, o acompanhasse em dupla de São Paulo até “O Belém”. Concordou. Tinham três dias pra chegar.
- Mas e aí Wagão? E as histórias de pescador?
- Tem a da loura que entra no caminhão de madrugada vestida de branco e faz os homens tombarem - deixa eles doidos. E a história das cruzes.
- Está falando dessas cruzes que vemos pelos canteiros da rodovia?
- Exato. Só que o conto é macabro e o lugar ninguém sabe direito onde fica. O fato é que um ônibus vindo do interior onde teve um Círio, lotado de romeiros, indo em direção a Belém, de madrugada deu de encontro a um caminhão cheio de madeira. Mais ou menos umas 70 pessoas morreram no local, na época foi o maior acidente com vitimas. No local fizeram uma capela onde caminhoneiros param para acender velas, eu tenho muito medo de passar lá. Dizem que em noite de trovoada, se você desligar os faróis, a luz dos trovões ilumina a Romaria te seguindo pelo retrovisor. Também dizem que a tal lourinha estava no ônibus, mas não pra romaria. Estava indo se casar, parecia uma bonequinha, legal né? O tal vestido branco é um vestido de noiva. Dizem que eles cantam quando um motorista está marcado pra morrer.
- A estrada, no começo, pode dar medo mesmo. O calor, o frio, a solidão.
- Também tem a chuva forte, os alagamentos, barragens, buracos na estrada...
- E os roubos de carga.
- Pois é... mas, Zezinho, quer saber qual é o problema? Essa é de lascar.
- Qual?
- A igreja sumiu. Dizem apenas que a cruz ainda está lá. Também que o corpo da dita lourinha não foi encontrado nos destroços do acidente e que agora ela entra sem permissão nos caminhões à fim de casar e dar o rabo no inferno. Quando o pobre dá por conta ela está lá. E que quando o sujeito é novo, tipo você, ela tenta perder a virgindade com ele. Foder com ele. Por isso eles tombam. Por isso que não existem muitos carreteiros da sua idade. Eles têm medo dela.
- Quantas horas pro prêmio?
- Setenta e duas, sem arrebite.
- Bom.
A TERTÚLIA
- Opa! Olha só que Mariazinha!
Uma garota pedindo carona, entre o nada e a coisa nenhuma.
- Vai pra onde Loren? Perguntou Wagão.
- Pra lá. Apontou pro horizonte, na direção da próxima cidade ou posto de gasolina.
- Sobe aí. Mas já sabe, boneca.
- De quê, tio?
- Existe um costume que dá direito a quem der carona de foder garotinhas que pedem carona. Portanto, a mocinha vai ter que dar o trocinho pra gente.
- Só se for de camisinha, tenho medo de pegar AIDS.
- Encapado, porra?
Pararam, abasteceram e depois partiram pra um riacho. Do boquete ao sanduíche. A mocinha era adivinhona, só faltava palitar o dente com pica enquanto chupava o Zezinho e dava por trás pro Wagão. A pequena se repartia em atenções iguais para os dois. Tinha uma maminha maior do que a outra. Zezinho ainda quis beijá-la, mas ela virou o rosto, dizendo: - “isso, não! Assim eu não quero!”. Mas o deixou gozar em sua boca.
De manhã chegaram à dita cidade. A fudona desceu sem dizer o nome ou a idade ou o porquê de estar sozinha por aí. Só mencionou que estava cansada de ganhar só pra comer. Que nunca teve uma festa de aniversário e que lhe falaram muito das tertúlias. Que um dia teria uma, nos conformes, que nem ouviu dizerem.
Partiram e pelo Rádio Zezinho abria o coração para o Wagão, que falava:
- Essa até que nem tinha muito dente podre.
- É foi minha primeira.
- Primeira o quê? Primeiro cu que comeu, primeiro ket? Eheheheh.
- Não, foi a primeira vez que eu estive com uma mulher.
- Cruz em credo, só na bronha?
- Heheeh, é, acho que sim.
- Tem um puteiro aí na frente, se quiser compensar o tempo perdido...
PROCISSÃO DAS CRUZES
O resto do dia foi normal, tentaram ganhar tempo dormindo de dia e guiando de noite. Um dos pneus do Zezinho furou e tiveram que parar lá pelas seis da tarde num mecânico. Esperaram por mais ou menos quatro horas sem fazer nada, só bebendo cerveja quente enquanto jogavam bilhar num puteiro e atiravam papel molhado nos transeuntes.
O tempo fechou ainda mais depois da meia noite, a bebida deu uma diarréia em Wagão que magoou sua hemorróida e tiveram que parar pra ele cagar no mato e fazer as pazes com ela. Os relâmpagos ao longe foram se aproximando e uma lenta canção era trazida pelos ventos, cada vez mais fortes. De cócoras Wagão deu um berro:
- Entra na cabine e traz o papel esfola-prega. Pega lá, que eu tô cagando fino. Foi a cerveja quente, porra. Não posso comer pimenta. Olha só a zebra do tira-gosto.
Entrou e quando pegou no rolo olhou rapidamente para o retrovisor e viu de relance quando um relâmpago iluminou o que parecia uma procissão de sombras a uns dois quilômetros de distância. Desceu correndo, quase mijando nas calças.
- Wagão, Wagão, eu vi porra!
Se limpando, Wagner tenta entender.
- Viu o quê, Zé, tá doido, caralho? Sim!
- A procissão, a romaria!
- Quer parar de roer as unhas, Seu! Parece até criança.
Depois de aliviado, Wagner vai até o meio da estrada, acende um cigarro, coça o saco, solta um peido molhado: - “eita”.
- Ô “Seu” Pedro Malazarte, vamos esperar por outro relâmpago, se eu vir o negócio, pode deixar que já vai tá na hora de você me ouvir dizendo: - “Nossa, ai que medo”!
- Mas eu vi, cara.
INFINITA ESTRADA LÍQUIDA
Tomaram café de manhã, jogaram uma água nos caminhões e comentaram:
- Trovão e nada de chuva. Isso não é normal, não. Melhor a gente esperar, mais um dia, ficar quieto. Essa tempestade tá seguindo a gente desde São Paulo.
- Mas, e o prêmio Wagão? Vamo perdê a premiação?
- É perigoso Feinho. Pra pegar essa grana só arrebitado e isso eu não faço desde que vi os pedaços de um amigo que dormiu no volante de tarde e bateu a tantos por hora; um sol da porra e chapado a quatro dias. Passei por lá e era só resto de bunda, de perna, tinha lasca de gente grudada no asfalto por causa do sol. Usaram uma pá pra catar os bifes.
- Mas ele estava sozinho. Nós estamos em dois. Não vai acontecer.
- Isso é o que você não sabe. Nem eu.
Wagner parou pra pensar, precisava do dinheiro, tinha brigado com a mulher, ia se separar, estava gostando de uma “dona” que vendia perfume perto do posto de entrega da firma. Queria fazer uma presença, comprar um presente bonito pra ela. Ela tinha um filho, um garoto batuta que já o chamava de Pai. Gostava do garoto e dos desenhos que o pequeno fazia das histórias que ele contava da estrada.
- Tudo bem. Mas vamos dividir uma dose pra cada posto, senão a gente fica doido desde já e acaba não chegando lá.
Almoçaram e depois deram a última dormida antes da chegada. Naquela tarde, Wagner teve um sonho muito estranho. Sonhou que viajava numa estrada esburacada, com acidentes a cada quilômetro e quanto mais pisava fundo, mais atropelava pessoas que se jogavam na frente do caminhão. Atropelava homens, mulheres e crianças, olhava pro lado e via uma mulher deliciosa, loura, com os maiores olhos verdes e peitos que já vira numa mulher; de pernas abertas enfiando os dedos na boceta enquanto gritava pra ele: - “Toca, vamo, toca, pisa! Tá na hora!”. Viu o filho de sua namorada na estrada pedindo carona e perdeu o controle do caminhão pra evitar atropelá-lo. Acordou banhado em suor com um travesti batendo na porta:
- Quer chupetinha bem? Quer chupetinha?
- Sai daí que eu te dou é uma remada!
- Ah, é? Vem que eu te dou é uma giletada.
Wagão fez que descia do caminhão e o travesti se mandou. Saiu correndo e gritando:
- Socorro ele quer me matar!
Todo mundo riu.
Sentou nos degraus e viu Zezinho se aproximando.
- Tem certeza que quer fazer isto? Perguntou Wagner, meio desconfiado com sei lá o quê.
- Claro, e vamos logo procurar pela coca-cola com café e o cara da pílula.
- É o mesmo que faz o café, é só perguntar pelo Alemão.
O Alemão era o encarregado da conzinha. Lá vem ele, com aquele tremendo barrigão.
- Boa tarde, Peão, o que vai ser? Pão, pão com pão, ou pão com morTANdela?
- Vai ser o de sempre Alemão. Primeira vez do moleque.
- O de sempre varia de preço conforme a distância. Pra onde vocês vão?
- Pro Belém.
- Eheheh. Vão ter que passar pelas Cruzes. É muito chão, coisa de um dia e meio sem dormir. Já pensaram nisso? Um tanto assim, entristece, e alguma coisa sempre acontece.
- Vai ter prêmio e o moleque aqui quer torrar lá no Locomotivas.
- Vão na maciota que eu não vejo trovoada assim já faz tempo. E ontem à noite eu sonhei com um negócio meio assim, parecia que um caminhão batia.
DRUGSTORE COWBOYS
Não há como descrever os efeitos de uma mistura de anfetaminas, com café e coca-cola e muitos, muitos cigarros pela estrada, noite afora. Os efeitos diferem de pessoa pra pessoa. Mas acho que posso afirmar que a pessoa muda: altera o seu humor, modifica os seus reflexos, transforma covardia em coragem. As luzes te cegam e o sono desaparece.
Pelo rádio:
- Ô Peão, põe uma aí uma dos Engenheiros, põe aquela do Raul. Tem Tião Carrero?
- Wagão, uma moto seguindo a gente desde o posto. E, não sei, ele parece com...
Depois de vários quilômetros, o cansaço de estar aceso e os sacos de biscoito vazios te dão a Paranóia.
Passaram pelas Cruzes sem notar. Começou a chover a partir de lá. Madrugada. Três e meia da manhã. Problemas no rádio, por causa dos trovões cada vez mais próximos. Ventania. Estavam se distanciando um do outro enquanto ouviam árvores caindo dos dois lados da pista. A noite mais os motoristas com alguma coisa lá fora.
- Não agüento mais, Wagão! Não dá, não dá. Tem uma.... aqui....me.... mais rápido. Sou eu quem está na moto.
- Pregou? Tem o quê?
- Ainda falta muito. Vamos dormir em ... lugar. Vou ... ela descer. Está... em mim. Eu to aqui comigo. Acho que bati em alguém. Do la... de fora.
- Tem um posto ali no ponto mais alto do morro. Tá abandonado, mas o chuveiro ainda serve, lá a gente espera essa chuva passar. Vem atrás de mim. É só me seguir.
Ruídos no rádio e Wagner quase ouviu o que pensou ser uma voz... feminina em meio aos chiados e uma música. Mas seguiu em frente. Dobrou na primeira à direita e seguiu em frente até dobrar à esquerda lá em cima.
Parou o caminhão, e como estava totalmente exausto depois de vinte e quatro horas sem parar, adormeceu. Trovões ensurdecedores acalentavam o seu sono já maduro.
AFINAL, QUEM É VOCÊ?
Sonhou que brincava com os pés na água de um lago e um vendedor que trocava garrafas usadas por livros assoviava pra ele, chamava-o. Era de novo menino e o garrafeiro ofereceu a ele a Playboy da Sophia Loren enquanto coçava o saco com a ponta dos dedos.
- O que faz aqui? É a revista que você queria, não é? Seu punheteiro do caralho!
- Estou brincando, não está vendo? É. Como encontrou?
- A gente sempre encontra o que procura, sempre encontra quem quer ser encontrado. Olha só pros peitos dela, ela está com tudo.
- Não tenho mais garrafas. O que preciso fazer pra ficar com ela?
- Nada demais. Apenas fique aqui e leia pra gente. O preço é maior conforme a distância. Tem mais gente pra ouvir. Muita gente. Ela também está aqui e quer foder com você.
- Mas eu preciso ir. Vou ganhar um prêmio e volto pra pegar, eu juro.
- Tudo bem, mas a gente precisa ficar com algo seu como garantia. O que você oferece pra gente?
- Não tenho nada, eu já disse, porra. Estou com sono. Meu lugar não é aqui.
- Eu te conheço, você sempre teve medo. Finge que não tem, mas tem. Está sempre fingindo ser o que você não é. Você não devia estar aqui.
- Não vou rezar por sua causa. Ou me dá o livro por bem ou por mal. Não vou dizer duas vezes.
- Então vamos oferecer pra quem queira realmente. As pessoas sempre querem alguma coisa. Você é muito velho pra isso.
Pegou o garoto pelo pescoço e apertou com força. Soprou forte com um hálito de chiclete de bosta.
Acabaram-se os relâmpagos. Acordou uma hora depois com fortes batidas em sua porta. Dessa vez não era chupetinha, nem era o dia.
QUARESMA
Desceu e procurou pelo outro caminhão: - “Me acordou e já pegou estrada. Quer mesmo o prêmio”. A batida que o acordou também disse: - “Olha a hora, olha a hora”. Mesma voz. Só pode ter sido o garoto.
Foi até os chuveiros e se meteu na água fria. Ouviu o último chuveiro do espaçoso banheiro ligar, pensou: “Água quente?”.
- Ô amigo, você viu um caminhão parado aí com o meu? Descendo aí a estradinha? Um rapaz novo dirigindo. Ele até me acordou.
Primeiro o silêncio, depois, uma voz degenerada:
- Aqui não tem ninguém.
- Brigado aí, Deus abençoe. Vai com Deus e me deixa com Deus.
E o chuveiro desligou. Alguns passos. Mais nada. Wagão sai, acende um cigarro, dessa vez não coça o saco, nem peida. Sobe e volta pra estrada. O efeito dos remédios já passou. Dessa vez não consegue mesmo ter medo. Tenta o rádio e nada. Falta pouco pra Belém.
Horas depois, ouve um último chiado no rádio, na freqüência de Zezinho, mas era apenas um chiado. Não almoçou, não parou, pisou fundo até Belém. Nenhum sinal do outro caminhão.
Põe seus óculos Ray-Ban, caminha até o final do imenso pátio, um sol romano queima suas costas, camisa no ombro esquerdo, cigarro entre os dedos trêmulos da mão direita. Para, olha para um céu verde miserável enquanto apalpa no bolso de trás da bermuda suja de graxa o dinheiro do prêmio.
Quando chegou na firma, teve a notícia de que um caminhoneiro arrebitado, carregando remédio num Volvo branco tinha dormido no volante, descido o barranco do posto velho do morro e se espatifado contra uma árvore enorme. Em vez de dobrar pra esquerda, dobrou pra direita. A carga esmagou a cabine e o motorista morreu na hora. O volante teve que ser tirado de dentro do seu peito. Primeira viagem do rapaz. Vinte e dois anos. O mais estranho é que quando o encontraram e serraram a cabine, sentiram um perfume de mulher.