De quem é a culpa?

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

NENHUM MERGULHO É POSSÍVEL SEM SANGRAR (de Marcos Salvatore)

by Edward Hopper

O tema proposto refere-se à última frase do conto “Em todos os sentidos”, da grande escritora Maria Lúcia Medeiros.

Trilha Sonora: Postal de Amor, Zezé Motta; músicas assombradas.
SEXTA
Depois de horas, acordo de pau duro. Cinco e meia da manhã. Não dá mais pra dormir. Vou lá fora com um café amargo e um cigarro bem aceso. Brindo com a lua nua. Canto bocejando, imito o Pato Donald:
- Ela vem pela montanha, ela vem (...) hora da nova velha história. Maldita placa. Ainda não, querida. Ainda não.
Gosto de me espreguiçar, sentir o estalo de ossos e músculos. Uma vez fiz minha tora estalar. Nunca mais. Na parede da cozinha, um relógio e os minutos, sempre atrasados. Estou sempre atrasado.
- Não olhe assim pra mim. Eu não melhorei. Estou com fome. Pode me dar de comer?
- Se você me pagar.
- Como quer ser paga?
Mão direita enfiada na cueca; esquerda saudando o dia. Quem tem medo do dia? Quem tem medo de envelhecer sem ter crescido? Sem molduras para mostrar? Apenas acenos discretos, incertos. Quem disse o quê?
- Mergulhamos de mãos dadas?
Lá fora uma placa de trânsito diz: - “PARE!”. Não quero pensar na Sexta. Minha rua tem dessas coisas. Não consigo parar.
- Você mora aqui sozinho?
- Sim. Felizmente os fantasmas da casa também moram sozinhos.
Ainda me vejo igual, vulgar, sem tesouros que ultrapassem minha capacidade de fazer melhor, de querer mais. Só vale a pena improvisar se souber o que vem lá. Uma leitora falou que eu tinha a mente doentia. Deus a abençoe, eu sou mesmo uma besta.
- Vivemos o que podia ser vivido, não foi?
- O que viver tem a ver com isso?
- Queria muito ter salvado você, ter protegido você, ter cuidado de você... você era a minha borboleta. Poderíamos ter perdido os dentes juntos.
- Então, perdoamos um ao outro agora?
- Ainda não.
Simplesmente feliz. Sem Sexta-feira pra colher e basear. Contente por ter sobrevivido aos escombros que fizeram parte do amor e da guerra. Ainda há pouco eu achei um grampo de cabelo e meu coração não reclamou, apenas disse: - “Pior”.
- Sua gala está com gosto de leite. O que andou comendo?
- Leitoras de livros de auto-ajuda.
Não quero mais lutar com isso, não quero respostas, não quero que aconteça nada. Tudo mudou sem que eu movesse uma palha. A posse de uma mulher na presidência, acidentes, enchentes, segregação racial, social, tudo bem bonito, bem legal, tudo igual. Como o macarrão de ontem que devoro com as mãos. - não tenho mais talheres, nem detalhes. Logo estarei tratando de revirar o lixo do vizinho, escondido, como um cachorro pulguento, de manhã e de tarde.
- Vai descobrir que nada cai do céu e que certas coisas são muito difíceis de dar.
- Lembra quando eu te disse pra confiar em mim? Apenas confiar? Eu te fiz uma promessa e cumpri.
- Se esqueceu de confiar em mim. As promessas se acabaram, não pode mais barganhar admiração e tesão.

SÁBADO
Me espreguiço de novo pra ter certeza que o sono já era. O agora é suave e delicado como uma coceira que ainda não coçou. Como uma primavera sem flautas, mas blues, que nos relaxam pouco antes de terminar.
- Veja o sangue na água. Veja como brilha! Minha primeira vez. Nossa primeira última vez.
Entro. Cago. Limpo a bunda. Bato uma olhando os satélites. Depois aparo os pentelhos encorpados. Não quero pensar no Sábado. Estou com a mesma toalha a dias, com o mesmo isqueiro, preciso comprar um cinzeiro, o chão está terrível. Misturo o shampoo com água, pra render. Que sabonete, o quê? Sabão regente em barra. Preciso varrer a casa. Pode aparecer alguém. Não consigo escrever. A placa lá fora diz “PARE” e eu nem tenho carro.
- Acredita em anjos?
- Acredito em asas quebradas.
Pode vir alguém? Varro amanhã. Parar com o quê?
Meus pensamentos estão soltos e carnívoros, como loucos que dominam um hospício. Me penduraram num poste lá fora, perto da placa de “PARE!”, estão por aí.
Estou ouvindo a Amy. Que voz maravilhosa ela tem.
- Posso ficar com esse disco? Você me dá?
- Pode levar o que quiser se ficar e me ouvir. Só não tente me fazer feliz. Não gosto mais da sensação de que o mundo é maravilhoso.
- Vai demorar muito?
Ligo a TV: ...dias de sol após as chuvas de dezembro. Mentira! Vai chover até São Pedro ficar doido do cú. Só para em junho essa merda. Capaz mesmo!
- Cor preferida?
- Cor de merda no sereno.
Reparo no engordurado do fogão – só uma boca funciona, a do forno. É bacana fritar ovos nele. Noto a louça suja na pia, com pedaços de tudo que sobrou das últimas duas semanas, ainda umedecida pelo morno pingar da torneira.
- Acredito em fazer alguém feliz, em cuidar de alguém. O resto é fruto de languidez e paciência. Mas dizer “eu te amo” também serve. Só não aceito que usem isso como desculpa pra peidar na minha presença.
- Até parece que você acredita no amor.
- Vem cá. Ainda sinto o meu perfume em suas coxas.
- Não me tente.

DOMINGO
O riso das lembranças me ofende - ainda acordadas? A força da felicidade alheia ameniza a morbidez. Como é que está lá fora? Ainda amo todas as mulheres que amei?
- Segure na borda enquanto eu te abraço.
- Devagar. Quero sentir. Quero que a noite não saiba que estamos aqui.
Eu não sabia que o céu podia ser assim, quase de manhã. O que é um céu estrelado? Dá pra ler o futuro? Não quero pensar no domingo. Estou aqui, noutro lugar.
- Sua mão diz que você não vai ser rico, mas vai dar pra viver.
- Nunca fumei um back, nunca funguei um pó. Mas aquele chazinho...
- Seu palhaço! Estou falando a sério.
- Posso tatuar seu nome no meu braço?
- Melhor não. O que tatuaria ao redor do meu nome?
- Correntes.
Comi uma coroa ontem. Daquelas com voz de garotinha. Tenho feito muito isso. Sessenta anos. Meti a beiça na xotona suculenta. Que maminhas! Tirou a dentadura pra chupar melhor. Ah, o contato do meu pênis com a pele murcha! E quando eu puxava, o ar saía: - Abhuph, abhuph!
- Você acredita em via láctea?
- Nunca entendi. Tento ser um agnóstico não praticante. Oh, Baby. Quero que sangre em minha boca.
- Oh, eu te amo seu filho da puta doente.
Não quero lembrar daquele cheiro de feijão verde, de água sanitária. Aquela égua tentou me dar um terra. Tive que dar uma bifa na velha. Ela chorou, chorou muito. Apanhou na boca, mas deixa pra lá. Não quero pensar no Domingo.
- Você queria me ver. Já me viu. Agora pegue suas coisinhas e vá.

SEGUNDA
O que pode ser chamado de tudo? Rascunhos de poemas? É, só que tudo o que eu quero é ir embora daqui. Mudar. Ir pra outro lugar. Não me conheço mais.
- Desista. Você nunca vai sair de Belém. Essa cidade é o céu e o mármore do inferno pra você. E nós sabemos o quanto você adora sofrer, só pra dizer depois: - “Eu estou sofrendo”.
Sempre quis dizer a frase: - “Estou fazendo as malas”. Quantas vezes já ouvi isso? Não quero pensar na Segunda.
- Pior pesadelo?
- Minha casa.
Pode ser que me apaixone quando voltar a acreditar no amor. Como num conto de férias. Como num filme em preto e branco. Beijar a Audrey, beijar sua voz, o seu sorriso, aqueles seios míopes, aquele olhar quietinho.
- Segunda-feira pode achar que já contou algumas histórias. Mas as outras histórias estão por aí, esperando para serem vividas por alguém como você.
- Já te falei que não te amo mais? Que nunca te amei?
- Já.
Quando eu era moleque, sempre me perguntava o porquê de coisas boas acontecerem a alguns e a outros não. Nunca acreditei em fatalidade. Fatalidade é coisa de novela. Novela é só cornada, putaria, isso é um fato. (...) A culpa foi minha.
- Me desculpe por tudo que disse. Só falei por que você me machucou.
- Não sou nada do que você pensa. Também sou de carne e osso, preciso de tempo.
- Cara, como você é um egoísta. Tempo pra quê? Pra me tornar igual a você?
Já é um novo dia e eu ainda não dormi. Estava lá fora vendo os fogos de vista iluminarem aquela maldita placa lá fora. Só entrei porque a solidão é um vício de foder. Não sei mais repartir o que não pode ser tocado.
- Nós sangramos. Nos afogamos, morremos. Estava tudo aqui. Só precisava ir mais fundo.
Portishead me ajuda a sofrer em silêncio. O mundo é maior se você sabe o que fazer com ele. Algumas alegrias são a porta de entrada das eternas alergias. Vou me livrar daquela placa. Eu não sou especial.
- Não fique assim, não chore.
- Eu te amo, porra!
- Diga de novo.
- Vai-te pra merda!

TERÇA
Dobrei tantas esquinas. Qual delas me levou até a Terça? Em qual delas me perdi? O que conto não tem começo, nem fim. Meu limite se esqueceu de me levar.
- Agora sua virgindade está dentro de mim. Seu sangue e meu sêmen irão fecundar esta piscina pra sempre.
- Você promete?
- Eu prometo.
Não quero pensar na Terça, ou pior, nela. Vê? Tento afastá-la, mas me aproximo das conjugações familiares. Escrevo pra Terça-feira. Não me tire isso também. Ninguém lerá isto. Estou velho e gordo demais para amar.
- Com o tempo você vai descobrir o que nós fomos. Não existem certezas. Minha vida não cabe dentro da sua. E a sua não cabe dentro da minha. Quer um exemplo?
- Em ordem cronológica, por favor.
- Cínico.
Lembro que a Terça sorria mais, sabia mais. Suas injeções na perna ainda me fazem rir. O brilho dos seus olhos ainda está no fim do túnel e ainda é madrugada. Estou confuso depois de ter arrancado a porra da placa. Pare. Pare. Pare. Chega.
- Amei você também. Nunca estive nem aí.
- Acredito em você. Mas eu estava aqui.
Não gosto de lembrar que agora que finalmente estou pronto, simplesmente a Terça não está aqui pra me dizer isso. Estar pronto demora, não é?
- O que vai fazer com aquela placa?
- Um sacrifício.
Como é que eu te encontro de novo? Em qual esquina? Vinte minutos de algo novo não serão suficientes pra aprender. Se alguém me quiser não vou mais me querer pronto.
- Ih, a maconha que eu fumei me fez perder a noção.
- Deixa eu ver. Uh, essa é da boa. É da boa!
- Você não é normal.
Já passou, não é? Meus truques se esgotaram. Tá tudo aí. Meu coração não é de pedra e isso é novo pra mim. As despedidas têm sempre uma cor de azul e prata. É assim que recordamos. Corro, corro e abraço a Terça às gargalhadas. Que bom! Que bom!
- Melhor ir devagar. Momentos bons sempre se esgotam.
- É a última coisa que eu faço por você. Mas eu precisava fazer isto, eu te devia isto. Como se chama isso? Me diz.
- Se chama tortura. Se chama dor. Mas não importa, você não me pediu nada, eu fiz isso por que eu quis, não é mesmo?
- Depois o viciado sou eu.

QUARTA
Eu sou um débil. Estou agora fazendo desenhos invisíveis no céu com o dedo médio. Os tons vermelho de Rembradt compartilham a piada comigo. Não consigo sair.
- Me faz perguntas que já sabe a resposta.
- Pra que quero tempo? Pra fazer o quê?
- Não quero te perder, não sem saber que estou te perdendo.
- Não quero ser perdido. Como poderia? Teria que te amar, não é?
Fui feliz em algum lugar no meio disso. Logo vou estar fazendo isso ou aquilo. Quarta sempre falou que eu não tinha par. Não quero pensar nela.
- Estou com frio. Me cubra com o calor do seu peito de ombros largos. Me deixe suspirar no seu ouvido.
Meu amor só descansa. Não estou certo de ter sido amor de alguém. Toco em mim com a ponta dos dedos. Me perdôo se amei demais, se não soube o que fazer com isso. Eu quis bastante. Eu quis de mais.
- Só vim dizer adeus. Agora que eu te amo, posso ir.
- Você primeiro, obrigada.
- Baby?
- Sim?
- Obrigado. Seja boazinha.
- Pra onde você vai?
- Pra casa.