De quem é a culpa?

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O LADRÃO DE OBRAS COMPLETAS II, A MISSÃO (de Marcos Salvatore)

by Willy Ronis

Gente boa a Cida: lourinha, vinte e poucos anos, estatura mediana, olhos claros; uma Kate Bush de sandálias. Tinha sempre um sorriso diferente para cada situação: - “Ai, odeio borocoxô. Que nó!”. Nunca vi a Cida triste. Um barato a garota. Adorava sermões, por isso ia sempre dava em cima dos padres, pastores evangélicos (pagavam bem), monges budistas etc.
Há quanto tempo freqüentava os mesmos lugares? Dois meses? Alguns anos? Alguns dias? Não saberia dizer: - “Só o filé do boi!”. Apenas comia quando tinha fome, dormia quando tinha sono, transava pra se divertir e bebia quando se sentia só, mas apenas com coroas broxas que pagavam tudo – “Ai, homem bonito dá tanto trabalho!”. Mas ela os amava do seu jeito. Também gostava de mulheres, mas só as bem vestidas e com sotaque falso de cultura fashion. Era fã de Carpenters e os Zombies: - “Hum! Adoro!”.
Ainda era uma mulher. Gostava de maquiagem, festas, roupas e livros, realmente apreciava mais o próprio livro do que a leitura. Contemplava o seu toque, o seu cheiro. Lia-os como se sua vida dependesse disso; não entendia muita coisa, mas a gente perdoa. Era boa num monte de coisas, mas não ótima: pintava, costurava e tinha mania de ser enfermeira, uma vez aplicou uma injeção de anticoncepcional em sua gata que quase aleija a bicha. Muito atrapalhada, só comia em pratos de plástico porque tinha medo de quebrá-los e depois ter que limpar a sujeira.
De motel tinha tudo: toalhinhas, xampus, sabonetinhos. Carregava até mesmo as garrafinhas já vazias do frigobar – tinha coleções. Seus coroas lhe bancavam bem, mas faltava alguma coisa em sua vida, pensava: - “Preciso me espertar. Será que eu faço o Desu?”. Lembrou dos livros só de brincadeira.
Há muito reservara um lugar secreto para seus desejos, delírios e prazeres. Cercava-se de coisas que lhe transmitiam razão, proporção, satisfação. Lendo, sentia-se protegida do mundo lá fora: - “Não quero me sentir sozinha”.
As bibliotecas da cidade estão sempre super lotadas de vazio. As livrarias têm vendedores que não lêem nada. Muitos livros são guardados dentro de banheiros ou pior – “Ai, que horror! Vira essa boca pra lá!”. Chegou a conclusão de que precisava salvá-los (e pronto!) de um destino como aquele; daria a eles um lugar em que se sentissem em casa: a sua.
Quando roubou seu primeiro livro? Nem ela lembrava. Fugira tão tranquilamente que parecia querer ser descoberta. Trocara os cartões verdadeiros por falsos, feitos por ela com carimbos improvisados e uma paciência e técnica digna das pinturas em grãos de arroz – “Ai se a Tia Izaira me visse agora!”.
Na verdade quase se entregou só pra ver se alguém acreditaria. Algo dentro dela toda gritava: “- Fui eu! Fui eu! Estou roubando um livro, não podem ver? Oiii!”. Amava o poder que um roubo bem sucedido lhe emprestava: -“Ai, também não é assim, né?”.
Por que os levava? Por que não os lia e depois devolvia? Não saberia responder a isto, nem a nada que lhe parecesse normal. O limite do mundo é o inevitável: “Ai, que lindo! Deixa eu anotar!”.
Sentia-se uma assassina, uma criminosa, uma estupradora das páginas: “Ai, eu sou de pirar o cabeção!”. O gozo de conseguir não ser desmascarada lhe creditava mais confiança para a próxima vez. Só deu zebra uma vez – “Ai, não fala disso! Não aceito!”; é que ela tinha medo de barata e quando puxou um livro da estante uma voadora pulou em sua blusa e entrou. Cida deu um berro que acordaria até o Papa, fez um escândalo. Nunca desconfiou que já desconfiavam dela.
by Lisa yukavage
À noite bebia, dançava e espreitava as pessoas normais que não roubavam livros: tão completas quanto as obras que usurpava. Cogitou roubar alguém, mas onde a guardaria? Em que estante cabe alguém? Somente ela. De vez em quando tinha esses momentos de carência singular. Amava a vida como a um amante atencioso, menino de dezesseis anos: - “Ai, para, senão eu choro!”.
Meses depois a culpa invadiu seu coraçãozinho de flor: - “Foi!”. Resolveu devolver os livros e partir pra outra. Era sua missão: - “Ai, adorei!”. Quando chegou a vez do último, pegou aquele homenzinho com cara de galinha gripada querendo se dar bem com seu exemplar: - “Ah, ladrão! Não quero! Não deixo!”.
Deveria ter denunciado ali mesmo a patifaria do verme atrevido, mas resolveu segui-lo e ver no que dava. Não quis nem saber. Foi atrás do cachorro até o bar, depois pegou a mesma van que ele. Ouviu o frentista falando do papel. Fingiu que também estava apertada e recebeu de pronto um rolo enorme pra chantagem. O resto vocês já sabem.
- Não dou nada! Vai tomar no olho do cu!
- Olha o palavrão! Sabe o que é ô Zé? Você não tem alternativa. Ou me dá o livro e limpa a bundinha com o papel que eu tenho aqui, ou sai daí todo cagado e eu te desmascaro amanhã de manhã. Eu te conheço. É um covarde, só não sei se é burro.
- Pelo amor da puta merda, me dá só um pedacinho, só um tequinho esfola prega mesmo já serve. Não ta me ouvindo, não?
- Então me dá o livro, anda. E vamo logo que já tá empesteando só vatapá.
- Não vou rasgar esse livro, vadia. Ele também é meu, roubado honestamente. Também não me dou por vencido. Vai ter que fazer melhor do que isso, sua piranha.
Levantou-se e puxou as calças com o chocolate ainda crocante escorrendo em suas pernas. Empurrou Cida no chão e saiu correndo dando uns pulinhos engraçados com as pernas abertas - acho que tentando não sujar ainda mais as suas calças. Gritou: - “Vai tomar no cu da tua bunda”.
Foi engraçado o susto do frentista vendo aquele homem correndo como um macaco de circo cagado em sua direção. Não pensou duas vezes: pegou a mangueira de água e começou a dar umas rimpadas no safado, achando que fosse assalto.
E lá vem a Cida, com seu vestidinho de hiponga de boutique e seus saltos quebrados, tropeçando e caindo, caindo e tropeçando: - “Pega ele! Pega ele!”.
- Isso, dá-lhe nele, dá-lhe mesmo, que ele tentou pegar na minha piriquita enquanto eu mijava de cócoras lá atrás. Aliás, eu acho que ele é doido, caga e nem limpa a bunda, credo!
Enquanto Rubens apanhava de mangueira, deixou cair o livro. Cida correu e o juntou do chão, dando no pé logo em seguida. Correu na direção da estrada dando risada, a todo vapor, mas antes virou para ele, que ainda apanhava uma pisa do frentista, e mostrou o cotoco do dedo dando passinhos de forró. Fazendo pouco do trouxa.
- Me larga caralho, foi ela quem me roubou!
E ela, de longe:
- Olha o palavrão! E é bem feito, seu mal educado. Heheheheh.
Deu uma rasteira no funcionário do posto e saiu que nem um doido atrás de Cida.
- Filha da puta!!!! Devolve o meu livro!
Ela saiu gritando divertida que nem a Goldie Hawn. Quando estava quase sendo alcançada, um caminhão parou perto deles e dois caminhoneiros gigantescos desceram:
- Larga a menina aí, ô folgado pó de broca!
- Pô péra lá, desculpa aí.... é que... é que...
- Que desculpa o quê? Vai levá uns copinho mermo. E engole o choro!
A Cida se divertia: - “É mesmo, é mesmo, um puto!”.
Depois da surra, largaram Rubens vomitando no meio fio e ofereceram uma carona pra Cida.
- Vai pra onde boneca?
- Ai, Paris!
- Há! Pode deixar que a gente tem um mapa.
FIM
(Adeus, meu amor. Seja boazinha.)