De quem é a culpa?

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O LADRÃO DE OBRAS COMPLETAS - 1ª PARTE (de Marcos Salvatore)

by Marcel Gromaire

Tudo bem. O caso é o seguinte: Depois de roubar, como num milagre, seu centésimo livro, que por acaso também era o mais cobiçado, resolveu comemorar enchendo a cara até umas três da manhã. Bebeu cerveja, caipirinha, vinho, comeu coxinha, tira-gosto de queijo, presunto, azeitona. Deu em cima da mulher dos outros, puxou a irmã (linda, linda) de uma amiga pra dançar, falou no ouvido, levou um tapão na cara, fez vexame. Ficou tão chato, que lá pelas tantas, começou a perguntar o signo de todo mundo.
Olhou para uma empada abandonada numa mesa e mandou pra baixo, sentiu gosto de chiclete de peixe seco.
Seus amigos gostavam dele, mas ficaram putos quando começou a brincar com a boca cheia de empada: - “O Fred ta aí, o Jefferson? Fui a feira e vi a vulva da Vovó Mafalda”.
Ah, meu irmão! Deviam ter sentado a mão, dado uns “copinho” por cima da orelha. O cara tava demais.
Quando finalmente o bar fechou e foi convidado a ir pra casa antes que acabasse apanhando de alguém, contou seus trocados suficientes para uma van, e só. Saiu cambaleando, tropeçando sobre si mesmo.
Pegou a última van pra sua cidade, muita gente subiu na mesma, por isso o veículo super lotou. Parada aqui, sinal ali, gente pra burro e, de repente, já na rodovia, a diarréia começa sem aviso prévio, incisiva, combativa, resistente. Depois a dor de barriga lenta, sonora, inquietante começou a esquentar seu estômago. Começou a suar frio, olhava pra cima, pra baixo, leste, oeste. Fez um escândalo:
- Ô amigão, pisa fundo aê.
O motorista, muito puto:
- Se quiser pode descer. Não vou pegar multa por causa de um pinguço.
- No próximo posto por favor, por favor. Ali, ali.
Rubens saiu atropelando todo mundo. Abrindo caminho, cego. A van parou em frente a um posto mal iluminado. Ele desce sem olhar para trás, sem notar que alguns no microônibus começam numa vaia de festival. Apenas um frentista de plantão dormindo àquela hora. Acorda o funcionário que levanta, invocado.
- Onde é o banheiro amigão, onde é?
- Atrás do posto. Lá atrás. Isso, dobra lá embaixo.
- Valeu, valeu, Deus abençoe.
- Mas olha, escuta. Há, filho da puta surdo, me acordou só pra cagar. Tomara que faça nas calças. Hê He, me esqueci que acabou o papel de limpar rabo. Hê Hê.
Não ouviu, saiu correndo, quase defecando pelo caminho. Agüentou heroicamente. Chegando lá, viu apenas uma latrina afundada no chão. Não pensou duas vezes. Posicionou-se de cócoras e, como o Costinha diria: “Foram chuvas com rajadas frescas”.
Ah, como descrever? Só quem já passou por isso. Que alívio quente, molhado, conciso, espalhado! Acredito até que certos deleites andam de mãos dadas. Pensem o que quiser.
Lembrou que roubar livros para ele era um destino, não um delito. Obras completas encadernadas para lhe completar, já que sua história com pessoas terminava inevitavelmente em fracasso: falência, divórcio, suicídio. Era a única coisa que o fazia se sentir inteiro, bom em algo. Vivo.
Tinha um cartão em todas as bibliotecas da cidade e o esquema era simples: chegava até o balcão com dois livros, sempre dois, usava seu cartão para levar um qualquer; o que queria mesmo era o outro, sempre uma obra completa. Depois passava pela portaria normalmente.
Se aproveitava de pequenos deslizes dos funcionários. Prestava atenção no que conversavam, no que usavam, se pareciam preocupados ou felizes com algo. O resto era simples: bastava puxar uma conversa gentil, particular, pessoal e toda vida dava certo. Sempre conseguia levar os dois na maciota, na malandragem, sem anotar o empréstimo do segundo. Inclusive, todos comentavam com ele que um certo sumiço de livros tinha sido registrado e que todos desconfiavam de uma garota que de vez em quando aparecia com umas atitudes suspeitas e tal, vestida de hippie.
- Tem gente que faz cada coisa. Por que roubar livros, não é?
Olhava nos olhos da atendente e dizia cínico, aproveitando-se da situação para tirar o seu da reta.
- Não é?
by Edouard Boubat
Conhecia todos pelo nome, conhecia seus gostos, até o time que torciam, o nome dos seus filhos. A intimidade e o respeito com todos era a sua máscara. Mas, realmente, até mesmo ele já tinha notado o desaparecimento de livros que, por acaso, também cobiçava.
Ia para casa, seu velho kit net entupido de livros encostado a parede, do chão até o teto. Poucos móveis. Um frigobar velho, com pintura descascando.
Jamais lia os livros que roubava. Apenas os admirava. Era o seu prêmio de batalha. A razão do seu viver. Desenvolvera um temperamento mordaz, indiferente, insensível, só comparável ao de certas “figuras” do funcionalismo público.
Enfim, depois do último suspiro da cólica, percebeu que não tinha papel no banheiro. Como não pôde verificar algo tão... por que não verificou? Desesperou-se e do fundo do seu constrangimento começou a gritar inutilmente:
- Ei, ôu, seu frentista! Papel!
Nada. Só o fundo oco da noite ao encontro do dia. Uma música longe. De novo:
- Seu frentista! Não tem papel? Eu to aqui todo e...
Mais uma vez:
- Não me deixa aqui assim, rapá! Tá me tirando? Quê que é isso, porra!
Ele não sabia, mas o frentista estava dando em cima de uma “mocinha” que passava, lá na frente, na estrada. Não podia ouvi-lo, nem notar a presença de ninguém.
Já cansado de gritar e sentindo a merda secar na sua bunda, olhou para o livro e começou a chorar.
- Não, não, isso não. Tem que ter outro jeito.
Se fosse comigo, teria limpado com a camisa, ou as meias, mas o seu desespero era tão grande que não conseguia tirar o livro da cabeça. Tremendo da cabeça aos pés, pegou o livro e quando começou a rasgar a primeira folha ouviu aquela voz:
- Não, não faça isso! Uh! Que cheiro! O que você andou comendo?
Escondeu-se, quase escorregou nas próprias fezes.
- Quem ta aí? Quem ta aí?
- Não esquenta filhinho. Tenho aqui um rolo de papel higiênico.
Sua felicidade era tanta que quase esqueceu de que se tratava de uma mulher lhe vendo naquela situação.
- Passa pra cá, passa pra cá.
- Não! De graça não.
- Por que não, porra!
- Vamos fazer uma troca.
- Troca? Que troca? Não tenho dinheiro, mais nem um centavo.
Ouve um riso fininho, de desenho animado. O sorriso diz:
- Não me interessa dinheiro, que, aliás, você nem tem. Estou te seguindo desde o bar. Desde a biblioteca. Estava no ônibus.
- Mas, quem é você? Quem?
Pausa calculada, novo sorriso:
- Sou a dona, a dona do livro que você roubou. Ele é meu. Meu!
Ainda de cócoras, não sabia o que pensar. Sentiu apenas sua diarréia voltando triplicada com reforços e pronta para atacar. Lembrou do He-man, levantando sua espada e gritando: “Pelos poderes de Greyskull, eu tenho a força!”.