De quem é a culpa?

terça-feira, 16 de novembro de 2010

SETE (de Marcos Salvatore)


Primeiro Eva e a Cobra bateram um papo calcinha que a própria Pagu anotaria em seu diário. Depois, a fuga genial do Paraíso. Caim matou Abel por ciúme incestuoso da Mãe. Adão viveu e morreu no ostracismo da fruta: aquém, além, amém. Gostaria muito de saber o que aconteceu com o seu terceiro filho.

SETE (de Marcos Salvatore)
Trilha Sonora: Nina Simone, Iron Maiden, ACDC, David Bowie, Lou Reed e Waldick Soriano

Sete era órfão. O pai se suicidou depois que todos descobriram seu romance com a própria tia – estourou os miolos na sua presença, e quando a polícia chegou, ela ainda catava pedacinhos de miolo pelo chão. A Mãe ficou meio triste com a história e um dia saiu com Sete pra comprar cigarros e o abandonou numa esquina movimentada. Nunca mais foi vista. O menino foi encontrado num semáforo fazendo malabarismo (não sabia fazer truques) por uma assistente social da prefeitura. Não se lembrava do próprio nome, por isso uma freira, que o acariciava muito, lhe batizou com um nome bíblico. Fazia isso com todos os menores recolhidos sem nome, para não se esquecer de rezar por eles.
Menino tímido, cresceu, saiu do orfanato, começou a trabalhar como apanhador de cachorros (merdeiro também era uma opção) e casou com uma moça de família, com pai baiano e a mãe pernambucana. Foi chamado e a conversa foi mais ou menos assim:
O PAI (brincando de relógio com uma peixeira que estava sobre a mesa – the book is on the table): O senhor sabe que eu na sua idade, já era um homem feito. Trabalhava numa fazenda de bodes. E... sabe como é que se castra um bode, e porque?
SETE (meu Deus!): Não senhor.
O PAI (gesticulando de acordo): Eu lhe digo. Você pega o bode pelo saco, faz assim, aperta bem e amarra com linha forte. Espera uns dias, num sabe? É claro, nem sempre dá certo...
SETE (banhado em suor): O bode que o diga.
O PAI: O senhor falou o quê? Bom, deixa pra lá. O fato é que num belo dia você percebe que os culhões murcharam. É eu acho que a gente tem que cuidar muito bem dos nossos bagos. O senhor não concorda seu moço?
SETE (com a boca seca): Pode apostar.
Então casou, no civil e em três religiosos. Tudo para agradar a família da noiva. Na festa do casamento um tio, que tinha hemorróidas, chegou atrasado e porre, bateu em seu ombro e perguntou: - “Daqui é voltando, ou do outro lado é ainda?”
Não demorou muito pra perceber que tinha se casado com uma bruxa: Marli não raspava o cabelo das pernas, nem do sovaco. Apareceram pêlos de bigode, verrugas, as sobrancelhas então, nem se fale. De noite, na cama, o negócio era pior, pois Marli só gostava de ir por cima e nunca deixava Sete gozar, pois tinha nojo de gala. Mandava que ele fosse depois pro banheiro terminar. Jamais raspava os pêlos da xota, mas o obrigava a chupá-la incondicionalmente. O que ele fazia como uma espécie de penitência por ser tão azarado.
Um dia Marli até tirou uma foto com a cara do coitado enfiada em sua vagina, olhando assustado. Metade rosto, metade periquita. A foto ficou tão engraçada que seus pentelhos pareciam um bigodão tipo Viva Zapata. É claro que ela apelidou a foto de “O bigode do meu tio”.
Láo Tsé dizia que cada ganho é equilibrado por uma perda. Não sei se Confúcio concordaria; provavelmente, sim. Mas eles não conheciam a Marli. Só sei que as estações passaram como o vento.
Desde pequeno, Sete só tolerava gatos, aliás, só via graça em bichanos. Por isso, quando Marli apareceu em casa com um cachorro, ficou louco: -“Ficou doida, merda? Não sabe que eu odeio cachorro?”
- Sei.
- E aí?
- E aí, que você não sai comigo, não me leva pra lugar algum. É um Liso. Fico presa em casa. Por isso só pra te desacatar, comprei este labradorzinho lindo, seu Trouxa.
- E com que finalidade? Porra, neste lugar não cabe nem nós dois.
- Bom, já que você não me come direito. Pelo menos vou ter uma língua bem grande pra me lamber a buceta.
Era verdade, Sete não dava assistência à patroa há um bom tempo. Não que estivesse broxa, ou algo assim, mas é que ela o humilhava em público, o destratava de todas as formas. O motivo: Sete estava desempregado. Num daqueles períodos negros em que tudo dá sistematicamente errado. Porém a perspectiva de ter um cão em casa, mesmo sendo uma miniatura o irritou profundamente. Lembrou de um amigo vendedor de espelhos contando:
- Diz uma antiga lenda que no sétimo dia, Deus resolveu convidar todos os cães do mundo para uma grande festa. Afinal, o melhor amigo do homem merecia. A única condição que, divertido, impôs, foi que o porteiro recolhesse o cú de todos na entrada da festa; o que ele fez, não sem se atrapalhar um pouco. No meio da festa alguém deu em cima da cadela de alguém e a porrada comeu legal. Na correria, todos pegaram o cú errado na saída. É por isso que até hoje, toda vez que um cachorro cheira o rabo do outro e sente um cheiro familiar, pensa logo: -“Esse cú e meu!”, e o pau quebra de novo.
Quando sua mulher saía pra trabalhar de manhã, deixava instruções maciças: - Limpar o cocô do Gato (foi o nome que deu pro bichinho, só pra sacanear ainda mais o marido), dar comida na hora certa, etc. etc.
Apesar do banho do filhote ficar por conta de Marli (insistiu muito para isso, levava horas), a pior de todas as tarefas era sair com Gato para passear na pracinha em frente ao prédio. Disso, até gostava. Era um dos poucos momentos que tinha para respirar melhor. Longe do inferno que sua vida se tornara.
Certa vez cruzou com uma coroa jeitosa cheia de corpo, com um dobermann: “Hum! Essa dona ainda dá muito caldo!”
Papo daqui, papo dali, e... Sabe como é. Com a desculpa de dar ração pro cachorro, subiram pro apartamento, antes, deixaram o dobermann amarrado numa árvore. Depois de um bola gato da moda, arregaçou aquelas pernas preparadas pro abate e começou a castigar, quando de repente, sentiu algo estranho, inusitado, uma sensação como se estivesse se cagando sem sentir: Gato lambia seu saco com meiguice.
- Porra Gato!
A coroa se animou ainda mais, pois a ponta da língua do gato pegava nas beiradas do seu buracão.
- Não, não. Não pára não, papaizinho. Continua, não pára, assim, assim. Humhum. Ai mamãezinha! Ai mamãezinha.
Foi um caso sério. Humpfrey Bogart, seria ótimo para o papel de Sete.
Outra de lascar aconteceu quando a mulher viajou. Sete se sentiu livre pra sair pra beber com os amigos do Bazar do Rock. Como não tinha com quem deixar o cachorro, levou Gato consigo.
Foi um sucesso! Pela primeira vez choveu mulher na horta de Sete: pegou telefones, deu uns “coelho” com uma garota de cabelo verde. Um amigo seu, o Teco Trovão, analisou logo a situação: - “Seu Sete, cuide bem desse dog, que ele lhe dá sorte com mulher”. Outro amigo, o professor Maurício, sentado na sua cadeira, tomando a sua cervejinha, também fez seu comentário: - “se quiser vender, eu compro”.
E assim, os roqueiros se revezavam nos parênteses: O Maurão veio com essa: - “Esse bacana deve ser de pedigree.”; O Renato: - “Ô meu, troca esse nome tosco”; O Fabião: - “Ele sabe fingir de morto?” e o Marlon: - “Ei cara, vamos dar um gole de Biotônico Fontoura pra ele?”
E, assim, nos meses seguintes, Sete comeu todas as vizinhas que também tinham cachorro, saiu com todas as mulheres interessantes dos telefones anotados, até arrumou um emprego de secretário, descolado por uma das conquistas, diretora de escola. Seu mundo era só de água fresca.
Gato também cresceu e se tornou um cão muito bonito. Impressionava pelo tamanho, pela postura e pela docilidade que conservara desde filhote.
Um dia sete chega mais cedo em casa. A vida já não era um inferno. Até melhor estava seu relacionamento com a mulher. E ela também nem pegava mais no seu pé, parecia outra. Estava confiante, alegre, de bem com a vida.
Sobe até o quinto andar. Abre a porta – ia tomar um banho selvagem e encontrar uma figura que ele mesmo classificava como “um par de rabo”. Entra e ouve um uivo fundo, grosso, quase masculino. Reconheceu a voz. Atravessou a sala, dobrou no corredor, avançou pelo quarto e viu: era Gato, fazendo sexo com sua mulher, com loucura.
Deu meia volta. Lembrou do resolver do seu pai. Foi encontrá-lo numa caixa, embaixo da pia. Carregou o tambor pacientemente – ainda ouvia os gemidos da mulher. Foi até o quarto e atirou sem parar, uma, duas, todas as vezes. Mulher e cão já mortos e ele ainda atirava, mesmo sem balas, continuava atirando, tranquilamente.