De quem é a culpa?

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Baby Soturna (Poema em preto e branco de Marcos Salvatore)

by Gunter Blum



No Telégrafo existia uma flor dos dias santos e das feiras
Uma das mais belas e gostosas prostitutas sem eira nem beira
Seu nome era Maíra de dia e sua língua desafiava as leis da aceitação
Faço menção aos seus dotes exagerados na política da masturbação

Não em Cabaré ou casa de pensão, não
Em casa de família, sim. Por que não?
Enfim, tinha certa predileção por vereadores em fim de carreira
Que a chamavam de rameira pra depois serem cuspidos na cara

Gostava de ouvi-los chamarem-na de “minha filha”, “minha filha”,
Sua volumosa protuberância vaginal a carregava para bares, boates, festas e tal
Por seus encantos de fala mansa e sua falta de dentes
Isto, aliás, lhe ajudava na execução de trabalhos com sua boca indecente

- “Com mulheres não”, ela dizia.
Não se importava em dar para o primeiro ou para o último da fila
Tinha sido datilógrafa um dia. Profissão que abandonou pela putaria
Depois que a mulher do chefe a pegou ganhando o pão de cada dia.

Maíra de dia ocasionalmente nem cobrava, dava de graça por vezes
Pelo papo ou pelos olhos dos fregueses. Não sabia dizer “não”.
Só dava o cuzinho por amor, só sentia tesão por vagabundos
Todos diziam que morreira cedo, cozinhando para algum moribundo

O medo de morrer sozinha a jogou na vida libertina e mal paga
Não falei também que era gága, falava pouco por isso, diziam
Mas quando falava, era terna, gentil e carinhosa. Uma dama, uma gueixa.
Sua vida tinha sido um álbum cheio de lembranças e perdas

Morreu atropelada por um Jurunas Conceição
Numa terça feira de novena, segurando uma vela e um terço na mão
Gostava dela e não sabia. Sonhava com ela enquanto dormia.
Com sua beleza feminina, sua doçura e sua melodia de menina.